O laudo chega com vinte linhas de número e uma coluna de classe: baixo, médio, adequado. Quem lê rápido olha a coluna. Quem acerta a dose olha o número — e sabe de qual tabela aquela classe saiu.
Porque a mesma amostra pode ser "média" numa tabela e "baixa" em outra, dependendo do método de extração e da cultura. Este artigo mostra as faixas que usamos, de onde elas vêm, e os três erros que mais custam dinheiro na hora de interpretar.
Saturação por bases: o padrão é 75%, não 60
O V% mede a proporção das cargas negativas do solo ocupadas por cálcio, magnésio e potássio. É o indicador que comanda a calagem, porque a dose de calcário é calculada para levar o solo de onde ele está até a meta.
Para soja e milho em solo de Cerrado, o padrão CTC é V% 75, pelo método de saturação por bases (Sousa & Lobato, Cerrado: correção do solo e adubação, Embrapa Cerrados, 2004). Todo laudo traz três cenários — 65, 75 e 85% — e a decisão final é do produtor, porque cada ponto de V% muda o custo por hectare. Meta mais baixa deixa alumínio trocável ativo na camada corrigida; meta muito alta em Latossolo desequilibra a relação entre cálcio e os demais cátions, e o custo do calcário extra não retorna.
As classes de saturação, pelo Boletim 100 do IAC, são estas:
| V% | Classe |
|---|---|
| até 25% | Muito baixa |
| 26 a 50% | Baixa |
| 51 a 70% | Média |
| 71 a 90% | Alta |
| acima de 90% | Muito alta |
Repare que não há buraco entre uma faixa e a seguinte. Tabela com intervalo faltando — pulando de 5,0 para 5,5, por exemplo — é sinal de tabela copiada pela metade, e deixa amostras sem classe.
Necessidade de calcário pela saturação por bases
Método de Sousa & Lobato (Embrapa Cerrados), o mesmo usado nas prescrições da CTC. Pegue o laudo e preencha.
Fórmula de saturação por bases para a camada de 0–20 cm. O resultado é a dose média da amostra: dentro da mesma fazenda a CTC varia, e onde ela varia a dose média sobra num talhão e falta no outro — é exatamente o que a taxa variável resolve.
pH: em CaCl₂, e a tabela classifica acidez
Primeiro cuidado: existe pH em água e pH em CaCl₂, e eles não dão o mesmo número. O pH em CaCl₂ costuma ficar cerca de 0,5 a 0,6 unidade abaixo do medido em água. Comparar um laudo feito em água com outro feito em CaCl₂ é comparar coisas diferentes — e é um dos erros mais comuns quando o produtor troca de laboratório.
Pelo Boletim 100, a tabela de pH em CaCl₂ classifica a acidez, não a adequação:
| pH (CaCl₂) | Acidez |
|---|---|
| até 4,3 | Muito alta |
| 4,4 a 5,0 | Alta |
| 5,1 a 5,5 | Média |
| 5,6 a 6,0 | Baixa |
| acima de 6,0 | Muito baixa |
Para soja e milho, a faixa de trabalho fica entre 5,5 e 6,0 em CaCl₂. Abaixo de 5,0, há alumínio trocável em atividade e o alongamento radicular já está comprometido antes de qualquer questão de nutriente.
Fósforo: aqui a tabela depende do método e da argila
Este é o ponto em que mais se erra, e é onde a interpretação genérica falha no Cerrado.
O Boletim 100 interpreta fósforo extraído por resina, e classifica por cultura. Já a interpretação da Embrapa Cerrados, que é a que se aplica aos nossos Latossolos, usa Mehlich-1 e classifica o teor pelo teor de argila do solo — porque solo argiloso adsorve mais fósforo, e o mesmo valor de análise significa disponibilidades diferentes em solo arenoso e em solo argiloso.
Na prática: um P de 8 mg/dm³ por Mehlich-1 pode ser médio num solo de 20% de argila e muito baixo num de 60%. Interpretar sem olhar a granulometria é adubar no escuro.
Por isso pedimos granulometria junto da análise química. Sem o teor de argila, a recomendação de fósforo em Latossolo é chute com aparência de cálculo. O conceito que organiza isso é o de fósforo remanescente, desenvolvido por Novais (Fertilidade do Solo, SBCS, 2007).
Potássio: o valor absoluto engana
As classes de potássio trocável, pelo Boletim 100:
| K (cmolc/dm³) | Classe |
|---|---|
| até 0,07 | Muito baixo |
| 0,08 a 0,15 | Baixo |
| 0,16 a 0,30 | Médio |
| 0,31 a 0,60 | Alto |
| acima de 0,60 | Muito alto |
Mas o teor absoluto é só metade da informação. O que a raiz enxerga é a participação do potássio na CTC, porque ela compete com cálcio e magnésio pelos mesmos sítios de troca.
A faixa de equilíbrio para K é 3 a 5% da CTC, com cálcio em torno de 50 a 60% e magnésio entre 15 e 20%. Um solo com K aparentemente razoável e CTC alta pode estar com K/CTC abaixo de 2% — e nesse caso há resposta à adubação potássica mesmo com o número absoluto parecendo confortável.
Já documentamos isso com dados reais: numa fazenda de 1.220 ha, 85% da área tinha teor de potássio adequado ou alto, e 97% estava com K/CTC abaixo de 4%. O caso completo está aqui.
Como ler as cores do mapa
O mapa interpolado colore o espaço entre os pontos amostrados. Três coisas para conferir antes de confiar nele:
- Onde estão os pontos. O mapa deve trazer a malha sobreposta. Mancha grande sem nenhum ponto dentro é extrapolação, não medição.
- Qual a escala. Duas faixas de cor podem representar diferença irrelevante ou diferença de dose. A legenda tem que trazer o valor, não só a cor.
- Se a malha comporta a variabilidade. Malha grosseira demais suaviza o mapa e mostra uma fazenda mais uniforme do que ela é — e aí a taxa variável vira taxa fixa com nome bonito.
Os três erros que mais custam
1. Comparar laudos de métodos diferentes. Resina e Mehlich-1 dão números distintos para a mesma amostra. Trocar de laboratório sem checar o método é criar uma variação que não existe no campo. Anote o método em cada laudo.
2. Corrigir a química sem checar o físico. Se há impedimento de penetração a partir de 10 centímetros, a fertilidade da camada de 20 a 40 é irrelevante — a raiz não chega lá. Medimos oito talhões em que isso acontecia, com a resistência subindo 2,6 vezes entre uma camada e a seguinte.
3. Usar a média da fazenda como dose. Quando a CTC varia de 6,6 a 18,5 cmolc/dm³ dentro da mesma porteira — e varia — a dose média sobra num talhão e falta no outro ao mesmo tempo. É exatamente o que a prescrição por zona resolve.
O que pedir ao laboratório
Para uma interpretação que sustenta prescrição, o laudo precisa de: pH em CaCl₂, matéria orgânica, P, K, Ca, Mg, Al trocável, H+Al, S, micronutrientes e granulometria. Com esses dados dá para calcular CTC, V%, m%, as relações entre bases e a necessidade de calagem e gessagem com segurança.
Faltando a granulometria, falta a base da recomendação de fósforo. Faltando o H+Al, não se calcula CTC a pH 7 — e sem CTC não há cálculo de calagem por saturação.
- SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004.
- RAIJ, B. van; CANTARELLA, H.; QUAGGIO, J. A.; FURLANI, A. M. C. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo (Boletim Técnico 100). 2. ed. Campinas: IAC, 1997.
- NOVAIS, R. F.; ALVAREZ V., V. H.; BARROS, N. F. et al. Fertilidade do Solo. Viçosa: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2007.