Dez talhões, 1.220 hectares, amostragem georreferenciada na camada de 0 a 20 cm, safra 2026, Cerrado de Mato Grosso. Olhando o teor de potássio do laudo, a fazenda estava bem: mediana de 67 mg/dm³, e 85% da área classificada como adequada ou alta.

Pela participação do potássio na CTC, a leitura muda: 97% da área estava abaixo de 4%, o piso da faixa de equilíbrio.

As duas leituras vêm da mesma análise. A diferença é o que cada uma mede.

Duas tabelas, dois diagnósticos

A tabela de interpretação do Cerrado classifica o potássio extraído por Mehlich-1 pelo teor absoluto. Para solos com CTC acima de 4 cmolc/dm³, 51 a 80 mg/dm³ é adequado e acima de 80 é alto (Sousa & Lobato, 2004). Por essa régua, a fazenda não tinha área com teor baixo.

Duas barras comparando a mesma área: pelo teor, 85% adequado ou alto; pelo K/CTC, 97% abaixo de 4%
A mesma área lida pelas duas réguas. Mesmo na parte com teor alto, acima de 80 mg/dm³, 86% dos pontos ficaram abaixo de 4% na CTC.

O K/CTC faz outra pergunta: quanto do complexo de troca o potássio ocupa, diante de cálcio e magnésio. A CTC mediana desta fazenda era de 6,79 cmolc/dm³. Com 67 mg/dm³ de K — 0,17 cmolc/dm³ —, o potássio ocupava 2,5% dela. Para chegar a 4%, seriam necessários cerca de 106 mg/dm³ no mesmo solo.

A conta: K/CTC (%) = K (cmolc/dm³) ÷ CTC (cmolc/dm³) × 100. Para converter mg/dm³ de K em cmolc/dm³, divide-se por 391. Aqui: 67 ÷ 391 = 0,171; 0,171 ÷ 6,79 × 100 = 2,5%.

Nenhuma das duas tabelas está errada. A do teor absoluto responde se há potássio para extrair. O K/CTC responde se ele está em proporção com os outros cátions que a raiz encontra no mesmo lugar. Cálcio, magnésio e potássio competem na absorção (Marschner, 2012): um solo bem calcareado, com muito Ca e Mg, pode ter teor de K confortável e ainda assim entregar pouco potássio à planta.

O mapa

Mapa de potássio na CTC de dez talhões, com 97% da área abaixo de 4%
Potássio na CTC, 0–20 cm. Mediana de 2,51%; 20% da área abaixo de 2%. Talhões numerados, cliente não identificado.

A mediana da fazenda ficou em 2,51%. Um quinto da área estava abaixo de 2%, faixa de deficiência clara de potássio no equilíbrio de cátions. Só 3% da área chegava a 4%.

E a distribuição não era uniforme. O talhão 7 tinha mediana de 1,45% de K/CTC e 37 mg/dm³ de K — o único em que o teor absoluto também ficava na classe média. O talhão 1, o melhor, ficava em 3,24%.

TalhãoK (mg/dm³)K/CTCCTC (cmolc/dm³)KCl p/ 4%KCl p/ 5%
1813,24%6,54156 kg/ha193 kg/ha
2672,45%6,58175 kg/ha237 kg/ha
3762,79%6,94150 kg/ha235 kg/ha
4692,52%6,92180 kg/ha246 kg/ha
5762,83%6,85170 kg/ha233 kg/ha
6612,40%6,50192 kg/ha257 kg/ha
7371,45%6,56252 kg/ha338 kg/ha
8542,00%6,92200 kg/ha299 kg/ha
9662,60%6,64166 kg/ha231 kg/ha
10592,14%7,29201 kg/ha312 kg/ha

Valores de K, K/CTC e CTC são medianas do mapa interpolado de cada talhão; doses de KCl são médias da prescrição.

Por que isso importa na fisiologia

O potássio não entra em nenhuma molécula estrutural da planta. O papel dele é outro: é o principal soluto na regulação osmótica, no turgor das células-guarda dos estômatos e no transporte de açúcares pelo floema (Marschner, 2012; Taiz et al., 2017).

Na prática de campo, isso aparece quando falta água. Planta com pouco potássio regula pior a perda de água e sente antes o déficit hídrico. No Cerrado, onde o veranico no meio da safra é frequente, esse é um nutriente que costuma passar despercebido enquanto chove.

A prescrição

Mapa de prescrição de cloreto de potássio por zona para elevar o K/CTC a 4%
KCl por zona para levar o K/CTC a 4%. A dose sai da CTC e do K de cada ponto, não da média da fazenda.

O laudo trouxe o potássio em duas metas, como faz com a calagem:

Meta de K/CTCKCl médioFaixa entre talhõesTotal
4% — mínimo181 kg/ha150 a 252 kg/ha221 t
5% — manutenção255 kg/ha193 a 338 kg/ha311 t

Na meta de 4%, a dose calculada no mapa foi de 150 a 329 kg/ha de KCl, com dose mínima de aplicação de 150 kg/ha. O talhão 7 pediu 68% a mais que o talhão 3. Numa dose única pela média, o 7 continuaria deficiente e o 3 receberia potássio acima do necessário para a meta.

Esta conta cobre só a correção do saldo no solo. A reposição do que cada safra exporta é outra conta, que se soma a ela.

O que fica deste caso

Teor de potássio adequado no laudo não encerra o diagnóstico. Em solo corrigido, com cálcio e magnésio em bom nível, o K/CTC é o indicador que mostra se o potássio está em proporção com o resto — e é ele que define quanto aplicar em cada zona.

Referências

MARSCHNER, P. (ed.). Marschner's Mineral Nutrition of Higher Plants. 3. ed. London: Academic Press, 2012.

RAIJ, B. van et al. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. 2. ed. Campinas: IAC, 1997 (Boletim Técnico 100).

SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2004.

TAIZ, L. et al. Fisiologia e desenvolvimento vegetal. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.