Oito talhões, 98 pontos de penetrometria, safra 2026 no Cerrado mato-grossense. O resultado dividiu o solo em dois países.

De 0 a 10 centímetros: oito talhões de oito abaixo de 2 MPa. Média de 1,25 MPa. Solo solto, raiz passa sem esforço.

De 10 a 20 centímetros: oito talhões de oito acima de 2,6 MPa. Média de 3,20 MPa. Impedimento severo.

A resistência mais que dobra — sobe 2,6 vezes — de uma camada para a seguinte. E a fronteira entre as duas cai exatamente onde a grade para de trabalhar.

O que a resistência à penetração mede

O penetrômetro mede a força necessária para um cone padronizado atravessar o solo, em megapascal. É um número que a raiz sente diretamente, porque a raiz precisa vencer a mesma resistência para se alongar.

ResistênciaDiagnósticoO que acontece com a raiz
Abaixo de 1 MPaSolo friávelCrescimento irrestrito (Bengough, 2011)
1 a 2 MPaSem restriçãoCrescimento normal em solo úmido
2 a 3 MPaRestrição moderadaElongação reduzida em 40 a 60%
3 a 4 MPaImpedimento severoRaízes desviadas; absorção de água e nutrientes comprometida (Tormena et al., 1998)
Acima de 4 MPaCríticoElongação cessa (Taylor & Ratliff, 1969)

Repare no que a faixa de 2 a 3 MPa significa: a raiz não para, ela desacelera pela metade. É o tipo de perda que não aparece em nenhuma foto do talhão e nem por isso deixa de sair da produtividade.

O pé-de-grade tem assinatura

Compactação de tráfego e pé-de-grade não são a mesma coisa, e o perfil de profundidade separa as duas.

Compactação por tráfego pesado tende a começar já na superfície e se espalhar. O pé-de-grade faz outro desenho: superfície solta, e uma camada adensada logo abaixo da profundidade de trabalho do implemento. É o solo que foi revolvido por anos até uma profundidade fixa, sempre a mesma, com o disco comprimindo o fundo do corte a cada passada.

O desenho que apareceu nesses oito talhões é o segundo, e sem exceção.

Num dos talhões, a camada de 0 a 10 cm tinha 69,5% da área abaixo de 2 MPa — praticamente livre. Na camada de 10 a 20 cm do mesmo talhão, 93% da área passava de 3 MPa, e 38% passava de 4 MPa, onde o alongamento radicular simplesmente cessa.

Por que ninguém enxerga

Porque a mão pega a terra dos primeiros centímetros.

O produtor desce do trator, abaixa, pega um punhado, esfarela entre os dedos e vê um solo bonito — solto, estruturado, com boa aparência. E está certo no que viu: aquele solo está bom. O problema começa dez centímetros abaixo da mão dele.

Enxadão e trado também enganam, porque abrem o perfil por arranque e não medem força. A camada adensada só aparece como número quando se mede a resistência a cada 2,5 cm de profundidade, ponto a ponto, e se olha a curva.

As três contas que o produtor paga sem ver

Água. A raiz que para aos 10 cm explora um volume de solo pequeno. No ano regular, dá para levar. No veranico, a lavoura não tem de onde puxar — a água que existe está abaixo da barreira.

Adubo. Esta é a mais cara e a menos percebida: nutriente aplicado em camada onde a raiz não chega não é absorvido. O produtor compra o fertilizante, aplica na dose certa, e a planta não alcança. A ineficiência não aparece no laudo de solo — aparece na produtividade, e é fácil culpar o adubo.

Erosão. Camada adensada reduz infiltração. A água que não entra escorre, e em solo arenoso isso é erosão laminar — a que leva a camada mais fértil sem fazer sulco, sem chamar atenção.

A ligação com a fertilidade

Aqui os dois trabalhos se encontram. Em outro levantamento que publicamos, o teor de potássio parecia adequado, mas o K/CTC estava abaixo de 4% em 97% da área.

Compactação é o outro lado da mesma moeda: de que adianta acertar a química da camada de 20 a 40 cm se a raiz não passa dos 12? Corrigir fertilidade sem resolver impedimento físico é entregar comida atrás de uma porta trancada.

Por isso a ordem importa. Diagnóstico físico e químico juntos, e a decisão de investimento tomada com os dois na mesa.

Subsolar não é só passar o subsolador

A recomendação técnica para esse quadro é subsolagem vertical a 35 a 40 cm de profundidade, nos talhões com resistência acima de 3 MPa.

E vem com uma condição que decide o resultado: fazer com o solo entre 60% e 70% da capacidade de campo.

Essa janela não é preciosismo. Fora dela, a operação custa e não resolve:

  • Solo seco demais: o esforço de tração dispara, o consumo de diesel sobe, a haste levanta torrão em vez de fraturar, e o resultado é irregular.
  • Solo úmido demais: a haste desliza e comprime em vez de romper. Em vez de quebrar a camada, você a alisa — e pode sair da operação com o problema pior do que entrou.

Depois da subsolagem, o solo fica temporariamente frágil. Tráfego pesado logo em seguida recompacta o que acabou de ser aberto, e o investimento vai embora numa safra. Faz parte do planejamento decidir o que entra no talhão depois.

Uma ressalva honesta sobre o método

A resistência à penetração depende da umidade do solo no momento da leitura: o mesmo solo lê mais alto quando está seco. Por isso o valor absoluto precisa sempre ser lido junto com a condição de umidade da amostragem, e não como uma nota fixa do talhão.

O que sustenta este diagnóstico não é apenas o valor absoluto — é o contraste entre camadas. As duas camadas foram medidas no mesmo ponto, no mesmo instante, na mesma umidade. Um salto de 1,25 para 3,20 MPa entre uma e outra não se explica por umidade: se explica por adensamento. E o padrão se repetiu em oito talhões de oito.

Como o levantamento foi feito

  • Equipamento: penetrômetro de impacto Falker SC-60, cone padrão ASABE 30°, diâmetro 12,83 mm, leitura a cada 2,5 cm
  • Profundidades: 0–10 cm (médias de 2,5 / 5 / 7,5 / 10 cm) e 10–20 cm (12,5 / 15 / 17,5 / 20 cm)
  • Interpolação: RBF Thin-Plate Spline, grade de 500×500 pixels, recorte pelo shapefile de limite do talhão
  • Altimetria: Copernicus DEM GLO-30, para cruzar as zonas adensadas com o relevo
  • Amostragem: 98 pontos distribuídos em 8 talhões

O que fazer na sua área

  1. Meça por camada, não por talhão. Um número médio de 0 a 20 cm teria dado 2,1 MPa nesses talhões — "restrição moderada", quase aceitável. A média escondeu que metade do perfil está em impedimento severo.
  2. Desconfie do solo bonito na mão. Se a lavoura entrega menos do que a análise química promete, e sofre desproporcionalmente no veranico, o físico é o primeiro lugar para olhar.
  3. Não subsole no escuro. Subsolagem custa caro por hectare. Medir antes define quais talhões precisam, a que profundidade, e quais não precisam — economiza mais do que custa.
  4. Respeite a umidade. A janela de 60 a 70% da capacidade de campo é o que separa dinheiro investido de dinheiro gasto.
  5. Remeça a cada 2 ou 3 safras. Compactação volta. O que muda é a velocidade, e ela depende do manejo de tráfego que vier depois.
Sobre os dados e as referências

Levantamento conduzido pela CTC na safra 2026, com os identificadores do produtor e as coordenadas dos eixos removidos. Os valores medidos são os do laudo.

  • BENGOUGH, A. G.; MULLINS, C. E. Mechanics of root growth: a review of experimental techniques and root growth responses to resistance. Journal of Soil Science, 1990.
  • BENGOUGH, A. G.; McKENZIE, B. M.; HALLETT, P. D.; VALENTINE, T. A. Root elongation, water stress, and mechanical impedance. Journal of Experimental Botany, 2011.
  • TORMENA, C. A.; SILVA, A. P.; LIBARDI, P. L. Caracterização do intervalo hídrico ótimo de um Latossolo Roxo sob plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 1998.
  • TAYLOR, H. M.; RATLIFF, L. F. Root elongation rates of cotton and peanuts as a function of soil strength and soil water content. Soil Science, 1969.
  • SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004.