Toda proposta de agricultura de precisão chega com um número de retorno. Quase nenhum deles se sustenta, e é fácil entender por quê: o retorno depende de quanta variabilidade a sua área tem — e isso ninguém sabe antes de medir.
Este artigo não te dá um percentual. Ele te dá a conta, e a calculadora para você fazer com os seus números.
Por que não existe um percentual único
A compilação de ensaios brasileiros de agricultura de precisão organizada pela Rede AP da Embrapa reúne resultados de dezenas de áreas, culturas e safras (Bernardi, Naime, Resende, Bassoi e Inamasu, Agricultura de precisão: resultados de um novo olhar, Embrapa Instrumentação, 2014). A leitura que interessa a quem vai investir não é a média: é a dispersão.
O retorno da taxa variável vem de uma condição simples — é preciso haver variabilidade para haver o que corrigir. Numa área homogênea, aplicar em taxa variável entrega quase o mesmo que aplicar em taxa fixa, e o custo do mapeamento não se paga. Numa área com CTC variando de 6,6 a 18,5 cmolc/dm³ dentro da mesma porteira — número real de um laudo que interpretamos nesta safra — a dose média erra nos dois sentidos ao mesmo tempo: sobra corretivo de um lado, falta do outro.
Três fatores decidem o resultado, e nenhum deles é o mesmo entre duas fazendas:
- Quanta variabilidade existe. É o que o mapa mostra. Sem mapa, é chute.
- Qual atributo está limitando. Corrigir potássio numa área cujo gargalo é compactação não devolve nada — a raiz não chega ao nutriente.
- O clima da safra. Correção de fertilidade aparece na produtividade quando a água permite. Em ano de veranico severo, o efeito se comprime.
Os dois lados da conta
O retorno vem de dois vetores, e eles têm naturezas diferentes.
Economia de insumo é a parte mensurável e imediata. Se o mapa mostra que 30 hectares já estão com saturação por bases na faixa recomendada, o calcário que iria para eles simplesmente não é comprado. Essa economia você confere na nota fiscal, não na balança.
Ganho de produtividade é a parte que depende da safra. Ela vem das zonas que estavam submanejadas — aquelas em que a dose média ficava abaixo do que a área precisava. É real, é a maior parte do retorno quando aparece, e é a que ninguém pode garantir antes.
Por isso a calculadora abaixo separa as duas. E por isso os campos de expectativa começam vazios: o número tem que ser seu.
Faça a conta com os seus números
Nada aqui vem preenchido como promessa. Os dois campos de expectativa começam vazios de propósito: o número tem que ser seu.
A sua área
A sua expectativa
Estes campos são hipótese sua, não número nosso. Só o mapa da sua área diz quanto há de fato para economizar.
Projeção aritmética a partir das premissas que você digitou. Não é promessa de resultado: a resposta de cada talhão depende do atributo que está limitando e do clima da safra.
De onde tirar cada número
Custo do serviço: do orçamento. Peça em R$/ha, com a malha de amostragem definida — 0,5 ha por ponto e 5 ha por ponto são serviços diferentes, com preços diferentes e resoluções diferentes.
Gasto atual com corretivo e adubo: da sua planilha da safra passada, dividido pela área. Use o gasto real, não o orçado.
Preço da saca: o que você recebe na fazenda, não o indicador de porto. A diferença é o frete, e ela muda a conta.
Redução possível no gasto de insumo: aqui só o mapa responde. Antes de ter o mapa, o honesto é rodar a calculadora com dois cenários — um conservador e um otimista — e ver se o serviço se paga no pior deles. Se se paga no conservador, a decisão é fácil.
Ganho de produtividade: o mesmo raciocínio. E preste atenção no campo de parte da área: o ganho quase nunca vale para a fazenda toda. Vale para a fração que estava submanejada, e o mapa é que diz qual é.
O que a conta não diz
Três limitações que valem mais que qualquer número de retorno.
O mapa dura mais de uma safra. A conta acima compara benefício de um ano com custo de um ano. Mas mapa de fertilidade se refaz a cada 2 ou 3 anos, e perfil de compactação e projeto de terraceamento duram bem mais. Se o resultado do primeiro ano ficar levemente negativo, divida o custo pelos anos de uso antes de decidir.
Corrigir o atributo errado não devolve nada. É o erro mais caro que vemos. Numa fazenda com impedimento físico a partir de 10 cm de profundidade, a fertilidade da camada de 20 a 40 cm é irrelevante: a raiz não chega lá. Medir o físico antes de investir no químico é o que evita gastar bem em cima do problema errado.
Amostragem ruim invalida a conta inteira. Malha grosseira demais para a variabilidade da área gera mapa suavizado, que mostra uma fazenda mais uniforme do que ela é — e aí a taxa variável vira taxa fixa com nome bonito. A densidade da malha tem que acompanhar a variabilidade, não o orçamento.
A ordem que faz diferença
Quando o dinheiro é limitado, a sequência importa mais que o valor:
- Físico primeiro. Penetrometria por camada. Se a raiz não passa, nada do que vem depois rende.
- Química depois. Amostragem georreferenciada, com a malha dimensionada pela variabilidade da área.
- Prescrição por zona. Calagem e gessagem pelo método de saturação por bases, com padrão CTC de V% 75 para soja e milho e cenários de 65 e 85%, pelo método de Sousa & Lobato (Cerrado: correção do solo e adubação, Embrapa Cerrados, 2004) e o Boletim 100 do IAC.
- Acompanhamento. NDVI ao longo do ciclo para verificar se a correção respondeu onde devia responder.
Essa ordem não é preferência nossa. É a hierarquia dos fatores limitantes: água e espaço para a raiz vêm antes de nutriente, e nutriente vem antes de ajuste fino.
O que a CTC faz com esse número
Na visita técnica, montamos a conta acima com os seus dados reais: o gasto da sua última safra, a variabilidade medida na sua área e o preço que você recebe. O resultado não vem como percentual de retorno — vem como comparação entre cenários, com as premissas escritas do lado.
Se a conta não fechar, dizemos. É melhor perder um serviço do que entregar um mapa que não ia se pagar.
- BERNARDI, A. C. C.; NAIME, J. M.; RESENDE, A. V.; BASSOI, L. H.; INAMASU, R. Y. Agricultura de precisão: resultados de um novo olhar. Brasília: Embrapa Instrumentação, 2014.
- SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004.
- RAIJ, B. van; CANTARELLA, H.; QUAGGIO, J. A.; FURLANI, A. M. C. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo (Boletim Técnico 100). 2. ed. Campinas: IAC, 1997.