Nove talhões, 1.642 hectares, Latossolo do Cerrado mato-grossense, safra 2026. Amostragem georreferenciada na camada de 0 a 20 cm, laboratório, interpolação e prescrição por zona. O objetivo não era uma dose de calcário. Era mostrar ao produtor o que cada dose compra.

É o que o laudo da CTC entrega por padrão: três cenários de calagem — V% 65, 75 e 85 — com mapa, dose por zona e tonelagem total de cada um. A recomendação técnica é 75%. A decisão é do produtor.

O ponto de partida

À primeira vista, a fazenda não parecia pedir muita coisa. A saturação por bases mediana, lida no mapa interpolado, estava em 66,7%. Para Latossolo de Cerrado, é sinal de correções feitas em safras anteriores.

O problema aparece quando o número vira mapa.

Mapa de saturação por bases de nove talhões, com 98% da área abaixo de 75%
Saturação por bases, 0–20 cm. Só 2% da área já está em 75% ou mais; 37% está abaixo de 65%. Talhões numerados, cliente não identificado.

Só 2% da área estava na meta de 75%. Outros 37% estavam abaixo de 65%, e três talhões (2, 3 e 9) tinham mediana abaixo de 64%. E a variação dentro da mesma porteira ia de 52,6% a 80,1% — quase 28 pontos de V%. A média de 66,7% escondia um talhão com mediana de 73,6% e outro com 62,3%.

TalhãoV% medianoK/CTC medianoCTC mediana (cmolc/dm³)
173,6%3,05%4,04
263,2%2,72%5,70
362,3%2,44%6,41
466,4%3,21%5,90
566,5%3,12%7,05
669,6%2,77%5,26
772,3%3,05%6,26
867,4%2,22%6,54
963,1%2,34%6,16

Três cenários, três contas

A necessidade de calcário foi calculada pixel a pixel pelo método de saturação por bases (Sousa & Lobato, 2004; Raij et al., 1997):

NC (t/ha) = CTC × (V2 − V1) ÷ PRNT, com a CTC em cmolc/dm³, os V% em porcentagem e o PRNT em porcentagem. Aqui, PRNT de 85%. Num ponto com CTC 6,0 e V% 62, a conta para V% 75 dá 6,0 × 13 ÷ 85 = 0,92 t/ha; para V% 85, 1,62 t/ha.

Três mapas de dose de calcário lado a lado, para V% 65, 75 e 85, com a tonelagem total de cada cenário
Os três cenários na mesma escala de cor. De 65 para 75%, a fazenda quase não muda de cor; de 75 para 85%, a variabilidade aparece.
CenárioÁrea tratadaDose médiaTotalFaixa entre talhões
V% 65 — conservador1.487 ha991 kg/ha1.474 t947 a 1.010 kg/ha
V% 75 — padrão CTC1.642 ha1.047 kg/ha1.720 t1.000 a 1.176 kg/ha
V% 85 — máximo potencial1.642 ha1.364 kg/ha2.239 t1.007 a 1.781 kg/ha

Três leituras saem dessa tabela.

No cenário de 65%, um talhão inteiro sai da prescrição. O talhão 1 já está acima dessa meta em toda a área (mínimo de 71,7%). A calagem cai para 1.487 ha.

Entre 65 e 75%, a diferença é pequena: 245 toneladas a mais. Em 88% da área, a necessidade calculada para V% 75 ficou abaixo de 1 t/ha — mediana de 0,63 t/ha. A prescrição adota uma dose mínima operacional de 1 t/ha, e é ela que define a maior parte do mapa nos dois cenários mais baixos.

De 75 para 85%, o calcário sobe 30% — 519 toneladas. E é só aí que a taxa variável trabalha de verdade: a dose média por talhão vai de 1.007 kg/ha no talhão 1 a 1.781 kg/ha no talhão 3. Quem aplica dose única nesse cenário erra para os dois lados na mesma passada.

Nenhum dos três cenários está errado. São três custos diferentes para três metas diferentes, e é por isso que o laudo mostra os três em vez de escolher em silêncio.

O que a calagem sozinha não resolve

Com a acidez sob controle, o limitante desta fazenda estava em outro lugar.

Mapa de potássio na CTC dos nove talhões, com 99% da área abaixo de 4%
Potássio na CTC, 0–20 cm. Mediana de 2,78%; 99% da área abaixo da faixa de equilíbrio de 4 a 5%.

O potássio ocupava 2,78% da CTC na mediana, e 99% da área estava abaixo de 4%. A faixa de equilíbrio é de 4 a 5% (Raij et al., 1997). Nenhum talhão tinha mediana acima de 3,21%.

Esse dado conversa diretamente com a calagem. Elevar o V% com calcário dolomítico põe mais cálcio e magnésio no complexo de troca — e cálcio, magnésio e potássio competem na absorção pela raiz (Marschner, 2012). Subir o V% sem repor potássio aprofunda o desequilíbrio que já existe. Por isso a prescrição de potássio sai no mesmo laudo que a de calcário, também em cenários:

Meta de K/CTCKCl médioFaixa entre talhõesTotal
4% — mínimo160 kg/ha150 a 205 kg/ha263 t
5% — manutenção209 kg/ha158 a 289 kg/ha344 t

O potássio tem um papel fisiológico que pesa no Cerrado: é o principal soluto na regulação osmótica e no controle da abertura estomática (Marschner, 2012; Taiz et al., 2017). Lavoura com pouco potássio regula pior a perda de água e sente antes o déficit hídrico — justamente no veranico.

Fósforo: duas metas, uma escolha

A prescrição de fósforo seguiu a mesma lógica, com duas metas de produtividade como base de cálculo:

MetaP₂O₅ médioFaixa entre talhõesTotal de P₂O₅Equivalente em MAP
70 sc/ha94 kg/ha61 a 119 kg/ha155 t213 kg/ha
85 sc/ha107 kg/ha74 a 131 kg/ha175 t242 kg/ha

A diferença entre talhões é de quase duas vezes — de 61 para 119 kg/ha de P₂O₅ no mesmo cenário. Em Latossolo, onde boa parte do fósforo aplicado é retida pelos óxidos de ferro e alumínio (Novais et al., 2007), dose média significa sobra num talhão e falta no vizinho.

A meta de produtividade aqui é base de cálculo da reposição, não previsão de colheita. Clima, manejo e genética decidem o resto.

O que o laudo entregou

Em vez de uma recomendação fechada, o produtor recebeu:

  • 30 mapas de atributos do solo e de prescrição da fazenda inteira, mais o painel de diagnóstico de cada talhão;
  • calcário em três cenários de V% (65, 75 e 85), com mapa de prescrição por zona para cada um;
  • KCl em metas de 4 e 5% de K/CTC;
  • P₂O₅ em duas metas, com equivalência em MAP, superfosfato simples e triplo;
  • diagnóstico de enxofre e micronutrientes, com gesso e boro de manutenção.

A escolha entre 65, 75 e 85% depende de preço do calcário posto na fazenda, capital de giro e horizonte de uso da área. Essa conta é do produtor. A nossa é garantir que ele faça com o mapa na mão.

Referências

MARSCHNER, P. (ed.). Marschner's Mineral Nutrition of Higher Plants. 3. ed. London: Academic Press, 2012.

NOVAIS, R. F. et al. (ed.). Fertilidade do Solo. Viçosa: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2007.

RAIJ, B. van et al. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. 2. ed. Campinas: IAC, 1997 (Boletim Técnico 100).

SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2004.

TAIZ, L. et al. Fisiologia e desenvolvimento vegetal. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.