GPS de celular erra alguns metros. GPS agrícola comum, com correção de satélite, erra dezenas de centímetros e escorrega ao longo do dia. RTK erra poucos centímetros e não escorrega. A pergunta que interessa é em que operação essa diferença vira dinheiro.

Como o RTK chega a centímetros

O receptor comum calcula posição pelo tempo de viagem do sinal. Erros de atmosfera e de relógio produzem desvio de metros.

O RTK — Real Time Kinematic — usa uma segunda antena parada num ponto de coordenada conhecida. Como essa base sabe onde está, ela calcula o erro instantâneo do sinal e transmite a correção ao receptor da máquina em tempo real. O receptor móvel aplica a correção e resolve a posição usando a fase da onda portadora, não apenas o código — daí a precisão centimétrica.

A correção pode vir de base própria instalada na fazenda ou de rede RTK por internet. Base própria não depende de sinal de celular; rede dispensa o equipamento, mas exige cobertura de dados no talhão.

A distinção que quase ninguém faz: repetibilidade

Existem duas precisões diferentes, e confundi-las gera frustração.

Exatidão é o quanto a posição medida corresponde à posição verdadeira no mundo. Repetibilidade é o quanto a máquina volta exatamente à mesma linha na próxima passada, no próximo mês, na próxima safra.

Para agricultura, o que quase sempre importa é a repetibilidade: plantar, pulverizar e colher sobre a mesma linha. É ela que permite tráfego controlado e é ela que o RTK entrega com estabilidade ao longo do tempo — enquanto correções de menor precisão apresentam deriva, e a linha de hoje não é a linha da semana que vem.

Onde o investimento paga

Sobreposição na pulverização. É a conta mais direta. Uma pulverizadora de 36 metros de barra trabalhando com 8% de sobreposição em 500 hectares aplica produto sobre o equivalente a 40 hectares extras por passada — é aritmética simples: 500 × 0,08. Multiplique pelo número de aplicações da safra e pelo custo do hectare de produto para ter o valor.

Tráfego controlado. Concentrar o rodado nas mesmas linhas em vez de espalhá-lo pelo talhão mantém a maior parte da área livre de compressão. É a forma mais barata de prevenir compactação, porque não gasta ferro: gasta organização.

Plantio e colheita alinhados. Em cultura de linha, colher sobre a linha plantada reduz perda e desgaste. Em cana e fruticultura, o ganho é maior ainda.

Operação noturna e com poeira. A barra continua no lugar quando o operador não enxerga a referência.

Onde não paga

Área pequena com poucas operações por safra, talhão de formato muito irregular em que o ganho de retilínea é pequeno, e propriedade sem cobertura de dados que não queira investir em base própria. Nesses casos, um guia de menor precisão resolve a maior parte do benefício por uma fração do custo.

Vale também a ordem: RTK não corrige problema de solo. Se a lavoura tem impedimento físico ou desequilíbrio químico, a linha perfeita não devolve produtividade. Autoguia é ajuste fino — entra depois de física e química resolvidas.

O que é o projeto de linhas

Não é só traçar reta. O projeto define, para cada talhão, a direção que reduz manobra, respeita o sentido do terraço e da drenagem, e distribui as linhas de tráfego de forma compatível com a largura dos implementos.

Nossa entrega inclui: levantamento topográfico e do contorno real do talhão, definição das linhas-mestras compatíveis com a largura das barras, compatibilização com os terraços existentes, e os arquivos prontos para o monitor — John Deere, Trimble, Topcon ou Ag Leader.

Compatibilizar linha de plantio com terraço é o ponto que mais gera retrabalho quando fica de fora: linha projetada sem considerar o terraço obriga manobra em cima da estrutura, que é justamente onde ela se rompe.

Como calcular se vale para você

A conta que fazemos com o produtor:

  1. Sobreposição atual estimada, em porcentagem da largura da barra
  2. Área total × número de aplicações por safra
  3. × custo médio do hectare de produto
  4. = desperdício anual em produto

Compare com o custo do sistema dividido pelos anos de uso. Some, se houver, o ganho de organização do tráfego. Se a conta não fechar, dizemos.

Referências
  • BERNARDI, A. C. C.; NAIME, J. M.; RESENDE, A. V.; BASSOI, L. H.; INAMASU, R. Y. Agricultura de precisão: resultados de um novo olhar. Embrapa Instrumentação, 2014.
  • TORMENA, C. A.; SILVA, A. P.; LIBARDI, P. L. Caracterização do intervalo hídrico ótimo de um Latossolo Roxo sob plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 1998.