Compactação é redução do volume de poros. O efeito prático é mecânico: a raiz precisa de mais força para abrir caminho, e a partir de certo ponto ela simplesmente para de alongar.

O problema é que quase nada disso aparece na análise química, e muito pouco aparece a olho nu. A camada adensada costuma estar abaixo da profundidade em que a mão alcança.

O limite de 2 MPa, e de onde ele vem

A resistência à penetração é medida com um penetrômetro de cone padronizado, e o resultado sai em megapascal. O valor de referência mais aceito na literatura é 2 MPa como limite a partir do qual o crescimento radicular das culturas anuais fica fortemente restrito (Bengough & Mullins, Journal of Soil Science, 1990). Para Latossolo brasileiro, Tormena e colaboradores confirmaram essa ordem de grandeza ao definir o intervalo hídrico ótimo (Revista Brasileira de Ciência do Solo, 1998).

ResistênciaLeitura
abaixo de 1 MPaSolo friável, crescimento irrestrito
1 a 2 MPaSem restrição relevante em solo úmido
2 a 3 MPaRestrição moderada, alongamento reduzido
acima de 3 MPaImpedimento severo

Uma ressalva que muda tudo: resistência à penetração depende fortemente da umidade do solo no momento da leitura. O mesmo ponto medido seco e medido úmido dá valores muito diferentes. Por isso o valor absoluto nunca deve ser lido sozinho — o que sustenta o diagnóstico é o contraste entre camadas medidas no mesmo ponto e no mesmo instante, mais o registro da condição de umidade da amostragem.

Por que a média de 0 a 20 cm engana

Este é o erro mais caro do levantamento de compactação.

Num levantamento que fizemos com 98 pontos em oito talhões, a camada de 0 a 10 cm deu média de 1,25 MPa — solo solto. A camada de 10 a 20 cm, nos mesmos pontos, deu 3,20 MPa — impedimento severo. A resistência sobe 2,6 vezes de uma para a outra.

Se o relatório tivesse trazido a média de 0 a 20 cm, o número seria 2,1 MPa: "restrição moderada", quase aceitável. A camada que trava a raiz teria desaparecido dentro de uma média. O caso completo, com os mapas, está aqui.

Por isso medimos a cada 2,5 centímetros de profundidade e apresentamos por camada, nunca por média do perfil.

Pé-de-grade: o formato que denuncia a causa

Quando a camada solta está em cima e a adensada começa logo abaixo — tipicamente entre 10 e 20 centímetros —, o padrão tem nome: pé-de-grade. É a assinatura do implemento que sempre trabalhou até a mesma profundidade, comprimindo o solo imediatamente abaixo da lâmina.

O diagnóstico importa porque muda a decisão. Adensamento superficial generalizado pede manejo de tráfego e cobertura; camada adensada localizada abaixo da profundidade de trabalho pede intervenção mecânica na profundidade certa.

As três contas que o produtor paga sem ver

Água que a raiz não alcança. Raiz que para aos 10 centímetros explora um volume pequeno de solo. Em ano normal isso passa despercebido; no veranico, é a diferença entre segurar a lavoura e perder.

Adubo aplicado onde a raiz não chega. O fertilizante é comprado, aplicado na dose certa e não é absorvido. Não aparece no laudo de solo — aparece na balança.

Água que não infiltra. Camada adensada reduz infiltração, e o excedente vira escoamento superficial, que é o início da erosão laminar.

Quando subsolar — e a condição que decide o resultado

Subsolagem não é rotina de calendário: é intervenção para um diagnóstico. A indicação aparece quando há camada com resistência acima de 3 MPa em profundidade que o preparo normal não alcança, confirmada por medição, não por suspeita.

E há uma condição que separa dinheiro investido de dinheiro gasto: subsolar com o solo entre 60% e 70% da capacidade de campo. Solo muito úmido não rompe, só se deforma e volta a fechar — e ainda compacta a linha de tráfego do trator. Solo seco demais exige potência excessiva e quebra em torrões grandes, sem fraturar a camada.

A profundidade de trabalho deve ultrapassar em alguns centímetros o fundo da camada adensada. Subsolar acima dela não resolve; muito abaixo gasta combustível sem ganho.

O que reduz a compactação sem ferro

Descompactação mecânica é pontual e reversível: sem mudança de manejo, a camada volta. O que sustenta o resultado ao longo do tempo:

  • Raízes agressivas na rotação. Braquiária e nabo forrageiro abrem bioporos que a raiz da cultura seguinte aproveita — o chamado efeito de descompactação biológica.
  • Palhada permanente. Cobertura dissipa o impacto da gota e mantém a estrutura da superfície.
  • Controle de tráfego e pressão de pneu. A pressão no solo acompanha a pressão do pneu; máquina pesada com pneu mal calibrado compacta em profundidade que subsolador nenhum alcança com facilidade.
  • Evitar operação com solo úmido. É a origem da maior parte da compactação em profundidade.

Como fazemos o levantamento

Penetrômetro com cone padronizado, leitura a cada 2,5 centímetros até 40 centímetros de profundidade, com registro da umidade do solo na data. Os pontos são georreferenciados, o resultado é interpolado por camada e entregue como mapa — um por camada, não um único mapa de média.

Com o mapa por camada dá para responder as três perguntas que decidem o investimento: quais talhões precisam, a que profundidade, e quais não precisam. Essa última costuma economizar mais do que o levantamento custa.

Referências
  • BENGOUGH, A. G.; MULLINS, C. E. Mechanics of root growth: a review of experimental techniques and root growth responses to resistance. Journal of Soil Science, 1990.
  • TORMENA, C. A.; SILVA, A. P.; LIBARDI, P. L. Caracterização do intervalo hídrico ótimo de um Latossolo Roxo sob plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 1998.
  • SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004.