Cinco talhões, 538 hectares, solo arenoso do Cerrado mato-grossense, safra 2026. Amostragem georreferenciada em grade na camada de 0 a 20 cm, mapa de fósforo interpolado e prescrição por zona.
O laudo trouxe uma resposta que se ouve pouco: nesta fazenda, fosfatagem corretiva em área total não se justifica. O fósforo estava adequado ou alto em 92% da área. O que a lavoura precisa é repor o que a safra leva — e reforçar só as manchas onde o teor caiu.
O número só tem sentido com a argila ao lado
A mediana de fósforo foi de 24,5 mg/dm³ (Mehlich-1). Sozinho, esse número não diz nada. O extrator Mehlich-1 é uma solução ácida que se esgota mais em solos argilosos, ricos em óxidos de ferro e alumínio; por isso extrai menos fósforo neles, e o nível adequado muda com a textura (Sousa & Lobato, 2004; Novais et al., 2007).
Aqui a argila mediana era de 108 g/kg, com 98% da área abaixo de 150 g/kg. Pela tabela para solos com até 15% de argila:
| Classe | P Mehlich-1 (mg/dm³), argila até 15% | Área desta fazenda |
|---|---|---|
| Muito baixo | até 6 | 0% |
| Baixo | 6,1 a 12 | 1% |
| Médio | 12,1 a 18 | 7% |
| Adequado | 18,1 a 25 | 46% |
| Alto | acima de 25 | 46% |
Classes de Sousa & Lobato (2004) para sistemas de sequeiro.
Uniforme na média, não no mapa
Adequado na média não quer dizer adequado em todo lugar. O talhão 4 tinha a maior mediana da fazenda, 34 mg/dm³ — e, dentro dele, pontos de 12,6 a 43,9 mg/dm³. Mais de três vezes de diferença no mesmo talhão.
| Talhão | P mediano (mg/dm³) | Argila mediana (g/kg) | P₂O₅ médio prescrito |
|---|---|---|---|
| 1 | 23,0 | 106 | 59 kg/ha |
| 2 | 23,8 | 108 | 60 kg/ha |
| 3 | 19,2 | 80 | 75 kg/ha |
| 4 | 34,0 | 128 | 71 kg/ha |
| 5 | 28,2 | 107 | 69 kg/ha |
Repare no talhão 4: a mediana mais alta e, mesmo assim, uma das doses médias maiores. A média do talhão esconde as manchas de fósforo baixo; o mapa, não. É onde a taxa variável faz diferença — a dose sobe só nessas manchas.
A prescrição
O laudo trouxe o fósforo em duas metas de produtividade, usadas como base de cálculo da reposição:
| Meta | P₂O₅ médio | Faixa entre talhões | Total de P₂O₅ | Equivalente em MAP |
|---|---|---|---|---|
| 70 sc/ha | 63 kg/ha | 59 a 75 kg/ha | 33,9 t | 143 kg/ha |
| 85 sc/ha | 76 kg/ha | 72 a 87 kg/ha | 40,7 t | 171 kg/ha |
Na meta de 70 sc/ha, o mapa foi de 59 a 110 kg/ha de P₂O₅. Em 64% da área a dose ficou na faixa de manutenção, de 59 a 61 kg/ha. Só 7% da área passou de 80 kg/ha.
Manter não é deixar de adubar. A reposição devolve ao solo o fósforo que sai com os grãos. Sem ela, o teor adequado de hoje cai safra após safra. O que o laudo evita é a fosfatagem corretiva em área total num solo que já está na faixa.
Por que o fósforo pede tanto cuidado no Cerrado
Fósforo é energia: ele faz parte do ATP, que move praticamente todo o metabolismo da planta, e dos ácidos nucleicos, necessários para a divisão celular (Marschner, 2012; Taiz et al., 2017). Planta com pouco P forma menos raiz — e raiz curta explora menos água em profundidade quando vem o veranico.
Ao mesmo tempo, os Latossolos do Cerrado retêm fortemente o fósforo aplicado nos óxidos de ferro e alumínio, e parte dele deixa de estar disponível para a planta (Novais et al., 2007). Em solo arenoso essa retenção é menor que em solo argiloso — mais um motivo para a dose seguir a textura, e não uma receita geral.
O que fica deste caso
Um bom laudo não serve só para mostrar onde aplicar mais. Serve também para mostrar onde não é preciso. Aqui, a leitura pela textura levou a reposição com reforço dirigido às manchas que pediam — e não a uma correção em área total.
Referências
MARSCHNER, P. (ed.). Marschner's Mineral Nutrition of Higher Plants. 3. ed. London: Academic Press, 2012.
NOVAIS, R. F. et al. (ed.). Fertilidade do Solo. Viçosa: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2007.
SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2004.
TAIZ, L. et al. Fisiologia e desenvolvimento vegetal. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.