Todo mapa de fertilidade herda a qualidade da coleta. Nenhuma interpolação, nenhum software e nenhuma interpretação recuperam uma amostragem mal feita — apenas distribuem o erro de forma convincente pelo mapa inteiro.

Este artigo trata das decisões que definem se o laudo vai sustentar uma prescrição ou apenas decorá-la.

Por que georreferenciar

Na amostragem tradicional, caminha-se pelo talhão em ziguezague, junta-se tudo num balde e envia-se uma amostra composta. O resultado é a média do talhão — e a média não existe no campo: ela é o ponto de equilíbrio entre lugares que precisam de muito e lugares que não precisam de nada.

Na amostragem georreferenciada, cada amostra composta tem coordenada. Com várias delas dá para modelar como o atributo varia no espaço e produzir uma superfície contínua. É isso que permite aplicar dose diferente em lugar diferente.

A diferença aparece quando a variabilidade é grande. Já interpretamos uma fazenda em que a CTC variava de 6,63 a 18,5 cmolc/dm³ e o fósforo de 4,57 a 87,4 mg/dm³ dentro da mesma porteira. Uma dose média nessa área erra nos dois sentidos ao mesmo tempo.

Quantos pontos por hectare

Não existe densidade universal — existe densidade compatível com a variabilidade da área e com a decisão que vai ser tomada. As faixas que trabalhamos:

MalhaQuando faz sentido
5 ha por pontoÁreas homogêneas, primeiro diagnóstico, corretivo de base
2 a 3 ha por pontoPadrão para prescrição de calagem e gessagem em taxa variável
1 ha por pontoÁreas com histórico de resposta irregular ou relevo variado
0,5 ha por pontoInvestigação de causa, áreas pequenas de alto valor

A regra que evita desperdício: a malha tem que acompanhar a variabilidade, não o orçamento. Malha grosseira numa área heterogênea produz mapa suavizado, que mostra uma fazenda mais uniforme do que ela é. O produtor paga por taxa variável e recebe, na prática, taxa fixa.

Quando não se conhece a variabilidade, o caminho barato é começar por uma malha mais aberta ou por zonas derivadas de imagem de satélite e altimetria, e adensar depois onde o primeiro levantamento mostrar contraste.

Subamostras: o ponto não é um furo

Cada ponto do mapa é uma amostra composta, formada por várias subamostras coletadas num raio pequeno em torno da coordenada. Trabalhamos com 8 a 12 subamostras por ponto.

A razão é a micro-variabilidade: um único furo pode cair sobre a linha de adubação da safra anterior, sobre um resto de esterco ou sobre uma trilha de máquina, e o valor sai deslocado. Compondo várias subamostras, esses extremos se diluem e o valor passa a representar o entorno daquela coordenada.

Profundidade: 0–20 é o padrão, e raramente é suficiente

A camada de 0 a 20 cm é a padrão para análise química, porque é onde se concentra a maior parte das raízes e onde atuam calagem e adubação de superfície.

Mas a camada de 20 a 40 cm responde outra pergunta, e ela é decisiva no Cerrado: é ali que se enxerga a acidez em profundidade e a saturação por alumínio que limitam o aprofundamento da raiz. Essa informação é o que define se o caso é de gessagem — o gesso agrícola carrega cálcio para baixo e reduz a atividade do alumínio em subsuperfície, coisa que o calcário sozinho não faz, porque tem pouca mobilidade no perfil (Sousa & Lobato, Embrapa Cerrados, 2004).

Em área com histórico de veranico severo, a camada profunda costuma explicar mais que a superficial.

Quando coletar

A janela boa é depois da colheita e antes da correção da safra seguinte, com prazo para o laboratório analisar e para a prescrição ser montada antes da aplicação. Duas regras práticas:

  • Evite coletar logo após adubação ou calagem. O resultado mede o que acabou de ser aplicado, não o que o solo tem.
  • Mantenha a mesma época entre os ciclos. Comparar laudo de pós-colheita com laudo de meio de safra cria variação que veio do calendário, não do solo.

Cinco erros que invalidam o laudo antes do laboratório

  • Coletar sobre a linha de adubação. Em plantio direto, o fósforo e o potássio da linha distorcem a amostra. A coleta segue um padrão definido em relação à linha, e o mesmo padrão em todos os pontos.
  • Misturar profundidades. Trado que entra torto ou coleta desuniforme mistura 0–20 com 20–40. O laudo fica intermediário e não representa nenhuma das duas.
  • Amostrar lugar atípico. Carreador, cabeceira, área de bebedouro, formigueiro e mancha de erosão devem ser evitados ou registrados como amostra separada — nunca compostos com o resto.
  • Ferramenta contaminada. Balde galvanizado altera zinco. Trado sujo de calcário altera cálcio e pH. Material limpo e, de preferência, plástico.
  • Identificação frouxa. Saco sem etiqueta legível ou sem vínculo com a coordenada transforma um levantamento caro em números sem lugar.

De quanto em quanto tempo repetir

Para atributos que respondem devagar — pH, V%, CTC, fósforo — o intervalo usual é de 2 a 3 anos. Potássio e enxofre, mais móveis, justificam acompanhamento mais frequente em áreas de alta exportação.

Repetir a amostragem nos mesmos pontos é o que transforma o histórico em informação: dá para medir se a correção aplicada de fato elevou o V% onde deveria, e em quanto. Sem isso, cada laudo é uma fotografia isolada.

O que entregamos

Arquivo dos pontos em SHP ou KML com as coordenadas de cada amostra composta, mapa interpolado por atributo com a malha sobreposta, mapa de necessidade de calagem e gessagem por zona, arquivo de prescrição no formato do monitor e o estudo técnico com a leitura de cada mapa.

A malha sobreposta ao mapa não é detalhe estético: é o que permite ao produtor distinguir onde houve medição e onde houve interpolação.

Referências
  • SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004.
  • NOVAIS, R. F.; ALVAREZ V., V. H.; BARROS, N. F. et al. Fertilidade do Solo. Viçosa: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2007.
  • BERNARDI, A. C. C.; NAIME, J. M.; RESENDE, A. V.; BASSOI, L. H.; INAMASU, R. Y. Agricultura de precisão: resultados de um novo olhar. Embrapa Instrumentação, 2014.